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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Transcrevemos abaixo para nossos leitores a entrevista dada pelo Padre John Zuhlsdorf ao jornal Gazeta do Povo a respeito do legado de Bento XVI no que diz respeito a Liturgia, em especial a Missa Tridentina defendida por este nosso blog.

Leiam, é muito boa! E aos que tiverem tempo recomendo a leitura do caderno sobre a sucessão papal do jornal Gazeta do Povo, está muito bom. Segue link: Sucessão do Papa 

 "O resgate da liturgia solene

Padre John Zuhlsdorf, autor do blog What does the prayer really say?

Para restaurar a sacralidade da missa, desfigurada por invenções locais alheias ao senso litúrgico da Igreja, Bento XVI resolveu, em 2007, liberar a celebração da missa tridentina, que era a norma na Igreja até 1969. Essa é a avaliação de um dos principais blogueiros de liturgia do mundo, o padre John Zuhlsdorf. Ele discorda da avaliação de muitos especialistas, para os quais a liberação da missa tridentina seria meramente um gesto de boa vontade para buscar o fim do cisma dos tradicionalistas da Sociedade São Pio X. Zuhlsdorf, que mantém o blog What does the prayer really say? (www.wdtprs.com), concedeu entrevista por e-mail à Gazeta do Povo.

Qual o papel da liturgia para Bento XVI?

O culto a Deus pela liturgia sempre foi central em seu pensamento. Ele escreveu muito sobre o tema.

Ratzinger liga a crise da Igreja à crise da liturgia. Como elas se relacionam?
 

São Pio de Pieltrecina, durante celebração do Santo Sacrifício
Missa, segundo a forma extraordinária do único Rito Romano
conhecida por Missa "Tridentina"

Deus está no topo da hierarquia dos nossos afetos. Se nossa relação com Deus está distorcida, defeituosa ou inadequada, todos os nossos relacionamentos serão distorcidos, defeituosos ou inadequados. Se nosso culto a Deus não é adequado ou agradável a Ele, enfraquecemos todos os outros aspectos de nossa vida. Nenhuma esfera da vida da Igreja pode estar bem se o culto litúrgico da Igreja não estiver saudável. Isso significa que precisamos rezar e adorar a Deus, como Igreja, da maneira como a própria Igreja determina que devemos fazê-lo. E precisamos manter uma continuidade com a forma como a Igreja sempre rezou. Essa continuidade é quebrada quando decidimos fazer as coisas de acordo com nossos próprios critérios, alterando incorretamente o modo de adorar e rezar. Assim fazemos mal a nós e a todos, porque estamos nisso juntos.


Quais as principais contribuições de Bento XVI para a liturgia?

Sua principal contribuição para o Novus Ordo (a missa celebrada atualmente) é, acima de tudo, a permissão para a celebração da missa tridentina na forma antiga, com o "motu proprio" Summorum pontificum. Parece paradoxal, mas não é. A celebração da forma mais tradicional lado a lado com o Novus Ordo cria uma atração gravitacional sobre como a forma nova é celebrada, no sentido de haver maior solenidade. O uso da missa tradicional, que está crescendo, ajudará a "curar" o culto e direcioná-lo para a continuidade com a herança católica e com o modo como a Igreja quer que celebremos.

A missa tridentina ganhou força com Bento XVI, mas ainda está disponível para uma minoria bem restrita. Ela permanecerá assim?


Pequenas minorias podem fazer coisas grandiosas. Além disso, o número de pessoas que frequentam a missa tradicional cresce lentamente, mas de forma consistente. Pelo menos nos Estados Uni­­dos, jovens padres e seminaristas vêm se interessando pela missa tridentina. À medida que eles vão assumindo paróquias, veremos um aumento no interesse por parte dos fiéis também.


Papa Bento XVI, distribuindo a comunhão de joelhos e na boca

Bento XVI também usou as missas papais para mandar mensagens sobre a maneira como ele quer ver a missa ser celebrada...

Sim, é importante a ação humilde, mas clara, do papa. Ele ensina pelo exemplo e pelo convite, em vez da imposição. Ele vem tentando trazer a Igreja de volta ao culto ad orientem (voltado para o oriente), e por isso pede que os altares tenham o crucifixo no centro, mesmo quando o padre está de frente para os fiéis. É um arranjo provisório na direção de colocar padre e fiéis juntos, voltados para a mesma direção, para o crucifixo, para o "oriente litúrgico". Esta é a melhor forma de expressar nossa esperança e anseio pelo Senhor. O papa também vem promovendo a comunhão de joelhos e diretamente na boca, que é a forma adequada de nos aproximarmos do Senhor Eucarístico. Esses são os exemplos mais importantes.

Qual o papel do monsenhor Guido Marini, mestre de cerimônias pontifícias, nesse processo?


Dom Antônio Carlos Rossi Keller, uso da casula romana e crucifixo
no centro do altar na forma ordinária do único Rito Romano 

 O monsenhor Marini entende muito bem a visão que o Santo Padre tem do culto litúrgico, e trabalhou para implementá-la. Ele tem feito um ótimo trabalho e espero que o próximo papa o mantenha no cargo.

Por que demora tanto para as mudanças e sugestões do papa serem aceitas nas dioceses e paróquias?


Porque é muito mais fácil demolir um prédio que construí-lo. Mas a geração dos que foram animados pelo chamado "espírito do Vaticano II", oposto aos seus documentos, está passando. Uma nova geração está assumindo posições de liderança e não tem a bagagem desse entendimento torto do Concílio, o que Bento XVI chamou de "hermenêutica da ruptura". A nova geração quer a continuidade e está bem aberta ao que o papa vem fazendo.

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Seguem alguns pensamentos do "Magno" Bento XVI sobre a Lirtugia, também retirados da reportagem acima:

"Colocar o padre de frente para o povo transformou a comunidade em um círculo fechado em si mesmo."
No livro Introdução ao Espírito da Liturgia.

"[A missa em que o padre se voltava para o sacrário] era muito mais uma questão de padre e povo olhando para a mesma direção, sabendo que, juntos, estavam numa procissão rumo ao Senhor."
Em Introdução ao Espírito da Liturgia.

"O homem que aprende a crer aprende a se ajoelhar, e uma fé ou uma liturgia que não está mais familiarizada com o ato de ajoelhar está doente."
Em Introdução ao Espírito da Liturgia, contestando liturgistas que defendiam o fim do gesto de se ajoelhar.

"A beleza da liturgia (...) é a expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra. (...) a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, como atributo do próprio Deus e da sua revelação."
Da exortação Sacramentum caritatis, de 2007.

"Desejo (...) que se valorize adequadamente o canto gregoriano como canto próprio da liturgia romana."
Da exortação Sacramentum caritatis.

"Peço que os futuros sacerdotes sejam preparados (...) para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos."
Da exortação Sacramentum caritatis.

"Mover o crucifixo do altar para a lateral para que se possa ver o padre sem obstáculos é algo que eu entendo como um dos fenômenos realmente absurdos das últimas décadas. A cruz atrapalha a Missa? O padre é mais importante que o Senhor? Esse erro precisa ser corrigido o quanto antes."
No livro Introdução ao Espírito da Liturgia, de 1999, recomendando o uso de um crucifixo no meio do altar durante a missa.

"O primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do rito; a arte da celebração (...) resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade."
Da exortação Sacramentum caritatis.

VIVA CRISTO REI! VIVA O IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

HOMENAGEM  DO BLOG TRADIÇÃO CARIRI AO PAPA BENTO XVI, QUE SEMPRE ESTARÁ EM NOSSOS CORAÇÕES E ORAÇÕES! VIVA O PAPA!


"Os sucesssores de Pedro, mortais também eles como todos os homens, passam, mais ou menos rapidamente. Mas o primado de Pedro subsistirá sempre, com a assistência especial que lhe foi prometida, quando Jesus o encarregou de confirmar os seus irmãos na fé. Qualquer que seja o nome, a figura, as origens humanas de cada Papa, é sempre Pedro que vive nele; é Pedro que dirige e governa; é Pedro sobretudo que ensina e difunde sobre o mundo a luz da verdade libertadora. Isto fazia dizer a um grande orador sacro que Deus estabeleceu em Roma uma cátedra eterna: “Pedro viverá em seus sucessores; Pedro falará sempre de sua Cátedra.”" - Discurso do Papa Pio XII aos esposos em 17 de janeiro de 1940
BENDITO SEJA DEUS! BENDITA SEJA A GRANDE MÃE DE DEUS, MARIA SANTÍSSIMA!

É com o coração triste, mas ao mesmo tempo grato, que noticiamos a renúncia do Santo Padre, Bento XVI, a Cátedra de São Pedro, conforme a Carta de Renúncia a Sé estará vacante a partir de 28 de Fevereiro próximo.

Ficamos tristes, sobretudo pela saudade que vai nos deixar este grande Papa, que tão firmemente conduziu a Santa Igreja nestes dias tão conturbados que Ela atravessa. E saudades leva tempo pra se curar.

Ficamos gratos, contudo, porque por meio de Bento XVI, Nosso Senhor fez em Sua Igreja, maravilhas! Em especial a restauração do digno espaço devido, por justiça, ao Rito Tridentino, através do milagre chamado Motu Proprio Summorum Pontificum!

Rezemos agora, pelos últimos dias deste brilhante pontificado e pela Santa Igreja, para que Nosso Senhor conduza-a para onde Ele deseja e para que Ele possa nos dar, por intecessão da Virgem Santíssima, Auxílio dos Cristãos, um Pastor segundo o Seu Sacratíssimo Coração!

Bendito Seja Deus!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ALGUÉM MUITO AUTORIZADO COMENTA SOBRE OS DESVIOS LITÚRGICOS, NINGUÉM MENOS QUE O ENTÃO CARDEAL JOSEPH RATZINGER
"A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas simpáticas, de invenções cativantes, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém , terminou por dispersar o propium litúrgico que não deriva daquilo que nós fazemos, mas, do fato que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Na liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se : o que nela se manifesta e o absolutamente Outro que, através da comunidade chega até nós. Isto é, surgiu a impressão de que só haveria uma participação ativa onde houvesse uma atividade externa verificável : discursos, palavras, cantos, homilias, leituras, apertos de mão… Mas ficou no esquecimento que o Concílio inclui na actuosa participatio também o silêncio, que permite uma participação realmente profunda, pessoal, possibilitando a escuta interior da Palavra do Senhor. Ora desse silêncio, em certos ritos, não sobrou nenhum vestígio.”
 NOTA DO BLOG: Onde será que ficam as nossas "criativas" celebrações da Missa, onde o povo deve participar e fazer de tudo um pouco?! 
Que o bom Deus nos conceda bons e santos sacerdotes para enfrentar a tarefa sobrenatural de restaurar a beleza e sacralidade da liturgia católica tão vilipendiada em nossas dias.
E que a Virgem Santíssima abençoe do Santo Padre na luta pela Reforma da reforma!

sábado, 5 de maio de 2012

“Por muitos” ou “por todos”? A resposta certa é a primeira.


Cidade do Vaticano, 3 de maio de 2012 – As Igrejas de várias nações do mundo estão restaurando na Missa, uma após a outra, as palavras da consagração do cálice tiradas literalmente dos Evangelhos e usadas por séculos mas, nas últimas décadas, substituídas por uma tradução diferente.

Enquanto o texto tradicional na versão latina original ainda diz: “Hic est enim calix sanguinis mei […] qui pro vobis et pro multis effundetur,” as novas fórmulas pós-conciliares leram no “pro multis” um imaginário “pro omnibus”. E, ao invés de “por muitos”, traduziram por “por todos”.

Ainda no último período do pontificado de João Paulo II, algumas autoridades vaticanas, incluindo Joseph Ratzinger, tentaram renovar a fidelidade nas traduções ao “pro multis”. Mas sem sucesso.

Bento XVI resolveu cuidar disso pessoalmente. Prova disso está na carta que ele escreveu no último dia 14 de abril aos bispos da Alemanha.

O link para o texto completo da carta segue abaixo. Nela, Bento XVI resume as questões principais da controvérsia para melhor fundamentar sua decisão de restaurar a correta tradução do “pro multis”.
Mas, para melhor compreender o contexto, vale lembrar aqui de alguns elementos.

Em primeiro lugar, ao dirigir sua carta aos bispos da Alemanha, Bento XVI também deseja alcançar os bispos de outras regiões de língua alemã: Áustria, os Cantões Alemães na Suíça e o Tirol do Sul, na Itália.

De fato, se na Alemanha, apesar da forte resistência, a conferência episcopal optou recentemente pela tradução do “pro multis” não mais com o “für alle”, por todos, mas com o “für viele”, por muitos, este não é o caso da Áustria.

Tampouco é o caso da Itália. Em novembro de 2010, por votação, dos 187 bispos votantes, somente 11 escolheram o “per molti”. Uma maioria esmagadora votou a favor do “per tutti”, indiferentes às instruções do Vaticano. Um pouco antes, as conferências episcopais de 16 regiões italianas, com exceção da Ligúria, se pronunciaram pela retenção da fórmula “per tutti”.

Em outras partes do mundo, estão retornando ao uso do “por muitos”: na América Latina, na Espanha, na Hungria, nos Estados Unidos. Frequentemente com desacordo e desobediência.

Mas Bento XVI claramente deseja ver esta questão resolvida. Sem imposições, mas instando os bispos a preparar o clero e os fiéis, com uma catequese apropriada, para uma mudança que deve ocorrer inevitavelmente.

Depois desta carta, fica fácil prever que o “per molti” também será restaurado nas Missas celebradas na Itália, apesar do voto contrário dos bispos em 2010.

A nova versão do missal, aprovada pela conferência episcopal italiana, está atualmente sob o exame da Congregação para o Culto Divino. E, neste ponto, certamente será corrigida de acordo com as instruções papais.

Um Segundo ponto diz respeito aos contínuos obstáculos encontrados pela tradução do “por muitos”.
Até 2001, os proponentes de traduções mais “livres” dos textos litúrgicos apelavam a um documento de 1969 do “Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia”, cujo secretário era monsenhor Annibale Bugnini, um documento sem assinatura, estranhamente escrito [originalmente] em francês, comumente referido por suas primeiras palavras: “Comme le prévoit”.

Em 2001, a Congregação para o Culto Divino publicou uma instrução, “Liturgiam Authenticam,” para a correta implementação da reforma litúrgica conciliar. O texto, datado de 28 de março, foi assinado pelo cardeal prefeito Jorge Arturo Medina Estevez e pelo arcebispo secretário Francesco Pio Tamburrino, e foi aprovado pelo papa João Paulo II numa audiência concedida oito dias antes ao cardeal secretário de estado Ângelo Sodano.

Lembrando que o rito romano “tem seu próprio estilo e estrutura que devem ser respeitados o máximo possível na tradução”, a instrução recomendava a tradução de textos litúrgicos que fossem “não tanto um trabalho de invenção criativa, senão um [trabalho] de fidelidade e exatidão na transcrição dos textos latinos para a língua vernácula”. Boas traduções – prescrevia o documento – “devem ser livres de uma dependência exagerada dos modos modernos de expressão e, de modo geral, livres de uma linguagem psicologizante”.

A instrução “Liturgiam Authenticam” sequer citava o “Comme le prévoit”. E era uma omissão voluntária, para privar o texto definitivamente de uma autoridade e de uma oficialidade que ele jamais havia tido.

Mas, apesar disso, a instrução encontrou uma enorme e fortíssima resistência, mesmo dentro da Cúria romana, tanto que foi ignorada e contradita por dois documentos pontifícios subseqüentes.

O primeiro foi a encíclica “Ecclesia de Eucharistia” de João Paulo II em 2003. No segundo parágrafo, onde lembra as palavras de Jesus para a consagração do vinho, afirma: “Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados” (cf. Mateus 14,24; Lucas 22,20 e 1Cor 11,25). O “por todos” ali presente é uma variação que não tem base alguma nos textos bíblicos citados, evidentemente introduzido a partir das traduções presentes nos missais pós-conciliares.

O segundo documento é a última das cartas que João Paulo II costumeiramente endereçava aos padres toda Quinta-feira Santa. Tinha a data remetente de 13 de março de 2005, escrita no Hospital Gemelli, e afirmava no 4º parágrafo que: "Hoc est enim corpus meum quod pro vobis tradetur’. O corpo e o sangue de Cristo são dados pela salvação do homem, da totalidade do homem e por todos os homens. Esta salvação é integral e ao mesmo tempo universal, pois ninguém, ao menos que livremente o escolha, é excluído do poder salvífico do sangue de Cristo: ‘qui pro vobis et pro multis effundetur´. É um sacrifício oferecido por “muitos” como diz o texto bíblico (Mc 14,24; Mt 26,28; Is 53, 11-12); esta expressão tipicamente semítica se refere à multidão que é salva por Cristo, o único Redentor, e, ao mesmo tempo, infere a totalidade dos seres humanos a quem a salvação é oferecida: o sangue do Senhor é “derramado por vós e por todos”, como algumas traduções legitimamente explicitam. O corpo de cristo é verdadeiramente oferecido ‘pela vida do mundo’ ( Jo 6, 51; 1 Jo 2,2).”

João Paulo II estava com a vida por um fio, estaria morto 20 dias depois. E foi um papa nestas condições, que sequer tinha forças para ler, a quem obrigaram assinar um documento em favor do “por todos”.

Na Congregação para a Doutrina da Fé, que não tinha recebido o texto antecipadamente, a questão foi recebida com desapontamento. Tanto que, alguns dias mais tarde, no dia 21 de março, segunda-feira da Semana Santa, numa reunião tumultuada entre os chefes de alguns dicastérios da Cúria, o Cardeal Ratzinger registrou seu protesto.

E menos de um mês depois, Ratzinger foi eleito papa. Anunciado ao mundo com visível satisfação pelo cardeal protodiácono Medina, o mesmo que havia assinado a instrução “Liturgiam Authenticam”.
Com Bento XVI como papa, a restauração da tradução correta do “pro multis” imediatamente se tornou um objetivo de sua “reforma da reforma” na arena litúrgica.

Ele sabia que encontraria uma oposição ferrenha. Mas nesta arena ele nunca teve medo de tomar decisões difíceis, como o provou o motu proprio “Summorum Pontificum” pela liberação da Missa no rito antigo.
Um fato bem interessante é o modo com o qual Bento XVI quer implementar suas decisões. Não somente com ordens peremptórias, mas através da persuasão.

Três meses depois de sua eleição a papa, ele fez com que a Congregação para o Culto Divino, liderada então pelo cardeal Francis Arinze, conduzisse uma pesquisa entre as conferências episcopais para descobrir suas opiniões a respeito da tradução do “pro multis” pelo “por muitos”.

Tendo reunido tais opiniões, no dia 17 de outubro de 2006, sob a instrução do papa, o cardeal Arinze enviou uma carta circular a todas as conferências episcopais, elencando seis motivos em favor do “por muitos” e encojarando-os – sempre que a formula “por todos” estivesse sendo usada – a “realizar a catequese necessária dos fiéis” em face da mudança.

É esta catequese que Bento XVI sugere que seja feita na Alemanha particularmente, numa carta enviada aos bispos alemães no último dia 14 de abril. Nela, ele aponta que não lhe parece que esta iniciativa pastoral sugerida com autoridade há seis anos atrás tenha sido jamais realizada.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Carta de Bento XVI à Conferência Episcopal Alemã a respeito do “Pro Multis”: “O respeito pela palavra de Jesus é a razão para a formulação da oração”.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Excelência! Venerável, caro senhor Arcebispo!

Durante a sua visita de 15 de março de 2012, o senhor me fez saber que, com relação às palavras “pro multis” no canon da Missa, ainda não existe um consenso entre os bispos de língua alemã. Agora parece existir o perigo de que, com o próximo e esperado lançamento do “Gotteslob” ["Livro de Orações"], alguns locais de língua alemã mantenham a tradução “por todos”, ainda que a Conferência dos Bispos tenha concordado em usar o “por muitos”, como é desejo da Santa Sé. Eu tinha lhe prometido que me pronunciaria por escrito sobre esta séria questão para evitar uma divisão no nosso mais íntimo local de oração. A carta, que eu envio através do senhor aos membros da Conferência Episcopal Alemã, também será enviada aos outros bispos de língua alemã.

Permita-me primeiro dizer algumas palavras acerca da origem do problema. Nos anos 60, quando o Missal Romano foi traduzido para o alemão sob a responsabilidade dos bispos, houve um consenso exegético de que as palavras “muitos” e “muito” encontradas em Is. 53, 11 em diante, era uma expressão hebraica que indicaria a comunidade, o “todos”. A palavra “muitos” na narração de Mateus e de Marcos também foi considerada um semitismo a ser traduzido como “todos”. Isto também tinha relação direta com o texto latino que seria traduzido, em que o “pro multis” nas narrações do Evangelho se referiam a Isaías 53 e deviam, portanto, ser traduzido como “por todos”. Este consenso exegético se esfacelou; ele não mais existe. Na tradução alemã da Sagrada Escritura, a narração da Última Ceia diz: “Este é meu Sangue, o Sangue da Aliança, que é derramado por muitos” (Marcos 14, 24, cf. Mateus 26, 28). Isto indica algo muito importante: a exposição do “pro multis” como “por todos” não foi uma tradução pura, senão uma interpretação que foi e continua sendo razoável, mas já é mais que tradução e interpretação.

Esta mistura de tradução e de interpretação pertence, em retrospecto, aos princípios que, imediatamente após o Concílio, nortearam a tradução dos livros litúrgicos para o vernáculo. Entendeu-se quão longe a Bíblia e os textos litúrgicos estavam ausentes da linguagem e do pensamento do homem moderno, de modo que mesmo traduzidos eles permaneceriam largamente incompreensíveis aos participantes do culto divino. Houve um novo empenho para que os textos sagrados fossem revelados, nas traduções, aos participantes da celebração, mas ainda assim eles permaneceriam alijados de seu mundo, e agora sim seriam ainda mais visíveis nesse alijamento. Sentiam-se não somente justificados, mas mesmo obrigados a misturar a interpretação na tradução para que, desse modo, se encurtasse o caminho para o povo, cujas mentes e corações poderiam ser alcançados através dessas palavras.

Até certo ponto, o princípio de uma substantiva, mas não necessariamente justificada tradução literal dos textos-fontes permanece. Quando eu rezo as orações litúrgicas em várias línguas, noto que é frequentemente difícil encontrar um meio termo entre as várias traduções e que o texto base subjacente muitas vezes permanece visível somente quando visto de longe. Além disso, somam-se as debilitantes banalizações que são verdadeiras perdas. Por causa disso, através dos anos, ficou cada vez mais claro para mim que o princípio da equivalência estrutural, mas não literal, enquanto regra de tradução, tem seus limites. Seguindo tais raciocínios, a instrução de tradução Liturgiam authenticam, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé no dia 28 de março de 2001, mais uma vez colocou a tradução literal em destaque, mas, é claro, sem impor um único vocabulário. A importante idéia que se encontra na base dessa instrução já se encontra expressa na distinção entre tradução e interpretação, como escrevi acima. Isto é necessário tanto para a Palavra das Escrituras quanto para os textos litúrgicos. Por um lado, a Palavra sagrada deveria, se possível, apresentar-se a si mesma, mesmo com a estranheza e perguntas que ela contém em si; por outro lado, à Igreja foi dada a missão de interpretar, dentro dos limites do nosso entendimento, a Boa Nova que o Senhor quis que recebêssemos. Uma tradução empática também não pode substituir a interpretação: faz parte da estrutura da Revelação que a Palavra de Deus seja lida na comunidade interpretativa da Igreja, que a fidelidade e a compreensão sejam combinadas. A Palavra deve existir como ela mesma, em sua própria forma, ainda que estranha; a interpretação deve ser medida pela fidelidade à própria Palavra, mas, ao mesmo tempo, ser acessível ao ouvido moderno.

Neste contexto, a Santa Sé decidiu que na nova tradução do Missal as palavras “pro multis” devem ser traduzidas enquanto tais e não, ao mesmo tempo, serem interpretadas. A simples tradução “por muitos” deve substituir o interpretativo “por todos”. Gostaria de destacar que tanto em Mateus como em Marcos não há artigo, de modo que não é “pelos muitos”, mas “por muitos”. Tendo entendido, como espero, a decisão fundamental sobre a ordenação da tradução e da interpretação, compreendo que isso represente um enorme desafio para todos os que têm a missão de interpretar a Palavra de Deus na Igreja. Sendo que, para os fiéis regulares, isso parecerá, quase inevitavelmente, uma ruptura no coração daquilo que é mais sagrado. Perguntarão: Cristo não morreu por todos? A Igreja mudou seu ensinamento? Isso é possível e permitido? Esta é uma reação contra a herança do Concílio? Todos sabemos, pela experiência dos últimos 50 anos, quão profundamente as mudanças nas formas e textos litúrgicos afetam as pessoas; quanto uma mudança num texto tão central afeta as pessoas. Embora este seja o caso, há muito se defendeu que a tradução de “muitos” fosse precedida por uma profunda catequese sobre a diferença entre tradução e interpretação, uma catequese na qual os bispos devem informar seus padres que, por sua vez, devem explicar de forma clara para os fiéis do que se trata a questão. Esta catequese é um pré-requisito básico antes que a nova tradução entre em vigor. Até onde eu saiba, uma tal catequese ainda não foi dada nas localidades de língua alemã. A intenção da minha carta, caros irmãos, é de pedir urgentemente que uma tal catequese seja estabelecida, para que então seja discutida com os padres e seja imediatamente disponibilizada aos fiéis.

Tal catequese deve primeiramente explicar porque, depois do Concílio, a palavra “muitos” foi traduzida por “todos” no Missal: para claramente expressar a universalidade da salvação desejada por e advinda de Jesus. Isso leva à seguinte pergunta: se Jesus morreu por todos, por que as palavras da Última Ceia dizem “por muitos”? Além disso, Jesus, de acordo com Mateus e Marcos, disse “por muitos”, mas de acordo com Lucas e são Paulo, disse “por vós”. Tal fato estreita ainda mais a questão. Mas, a partir daqui, também podemos chegar a uma solução. Os discípulos sabem que a missão de Jesus os transcende e ao grupo dos apóstolos; que Ele veio para reunir todos os filhos de Deus dispersos (conforme Jo 11, 52). Este “por vós” torna a missão de Jesus bastante concreta para os presentes: eles não são algum elemento anônimo de alguma vasta totalidade, mas todos sabem que o Senhor morreu particularmente por mim, por nós. “Por vós” alcança o passado e o futuro; eu fui nomeado muito pessoalmente; nós, que aqui estamos, somos conhecidos [pessoalmente] por Jesus. Nesse sentido, “por vós” não é uma constrição, mas uma especificação que é válida para cada comunidade que celebra a Eucaristia, que une a si mesma ao amor de Cristo. Nas palavras da consagração, o Canon Romano uniu as duas leituras bíblicas e lê: “por vós e por muitos”. Na reforma litúrgica, esta fórmula foi levada a todas as orações.

Mas, novamente: por que “por muitos”? O Senhor não morreu então por todos? O fato de Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus encarnado, ser o Homem para todos os homens, o novo Adão, pertence às certezas básicas da nossa fé. Gostaria de lembrá-los de somente três passagens das Escrituras: Deus deu Seu Filho “por todos nós”, Paulo escreve na Carta aos Romanos (Rom, 8, 32). “Um só morreu por todos”, São Paulo diz na Segunda Carta aos Coríntios, sobre a morte de Jesus (1Cor 5, 14). Jesus “Se deu em resgate por todos”, diz a 1ª Carta a Timóteo (1Tim 2, 6). Mas então podemos nos perguntar novamente: quando tudo isso é tão claro, por que então a Oração Eucarística diz “por muitos”? Bem, a Igreja tomou esta formulação da narrativa da instituição do Novo Testamento. Ela assim o faz por respeito à Palavra de Jesus, para permanecer fiel a Ele também na Palavra. O respeito pela palavra de Jesus é a razão para a formulação da oração. Mas então perguntamos: por que o próprio Jesus falou isso? O verdadeiro motivo para isso é que Jesus, dessa forma, Se revelou como o servo de Deus de Is. 53, Se identificou como a forma que a palavra do profeta esperava. Respeito da Igreja pela Palavra de Jesus, fidelidade a Jesus Palavra das Escrituras: nesta dupla fidelidade se encontra a base sólida para a fórmula “por muitos”. É nesta cadeia de reverente fidelidade que encontramos a tradução literal da Palavra das Escrituras.

Como dissemos anteriormente, o “por vós” na tradição Luca-Paulina não constringe, senão especifica, de modo que podemos afirmar que a dialética de “muitos”- “todos” tem seu próprio significado. “Todos” existe num nível ontológico – o ser e a ação de Jesus inclui toda a humanidade, passada, presente e futura. Mas, de fato, na comunidade concreta daqueles que celebram a Eucaristia, isso envolve somente “muitos”. Deste modo, podemos ver um significado triplo no ordenamento de “muitos” e de “todos”. Em primeiro lugar, deveria significar para nós, que podemos sentar à Sua mesa, surpresa, alegria e gratidão pelo fato d’Ele ter nos chamado, de estarmos com Ele e de podermos conhecê-Lo. “Graças ao Senhor, que por misericórdia me chamou à Sua Igreja …”. Em segundo lugar, é também uma responsabilidade. Como o Senhor alcança os outros – “todos” – a Seu próprio modo permanece um mistério. Mas, sem dúvida, é uma responsabilidade ser chamado para Ele e para Sua mesa, de modo que eu possa ouvir: por vós, por mim Ele sofreu. Os muitos carregam a responsabilidade por todos. A comunidade dos muitos deve ser a luz das velas, a cidade nas montanhas, fermento para todos. É um chamado que se aplica a todos pessoalmente. Os muitos, que somos nós, devem conscientemente praticar sua missão em responsabilidade pela totalidade. Finalmente, podemos adicionar um terceiro aspecto. Na sociedade moderna, temos a impressão que estamos longe de ser “muitos”, senão bem poucos – um pequeno número que continuamente diminui. Mas não – nós somos “muitos”: “Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” nos diz o Apocalipse de João (Ap 7, 9). Somos muitos e representamos todos. Dessa maneira ambas as palavras, “muitos” e “todos” devem ficar juntas e se relacionam entre si na responsabilidade e na promessa.

Excelência, amados irmãos bispos! Com o que escrevi acima, desejei indicar o conteúdo básico da catequese que deve preparar, o quanto antes, padres e leigos, para a nova tradução. Espero que tudo isso possa servir para uma celebração mais profunda da Eucaristia e se torne parte de uma grande missão que se nos desvela no “Ano da Fé”. Espero que esta catequese seja logo apresentada para que se torne parte de uma renovação litúrgica pela qual o Concílio trabalhou desde sua primeira sessão.

Com minhas bênçãos Pascais, permaneço no Senhor,

Benedictus PP XVI
MEDITANDO COM O SANTO PADRE

"Se os pulmões da oração e da Palavra de Deus não alimentam a respiração da nossa vida espiritual, sofremos o risco de nos sufocarmos em meio às mil coisas de todos os dias: a oração é a respiração da alma e da vida" PAPA BENTO XVI

domingo, 22 de abril de 2012

Bento XVI: Jesus nos assegura sua presença real na Eucaristia


Vaticano, 22 Abr. 12 / 02:40 pm (ACI/EWTN Noticias)

Em seu discurso prévio à oração do Regina Caeli, este domingo na Praça de São Pedro, o Papa Bento XVI assinalou que Jesus assegura aos fiéis sua presença real entre nós, através da Palavra e da Eucaristia.

“Assim como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão, assim também nós encontramos o Senhor na Celebração Eucarística”, indicou.

O Papa remarcou que, tal como ensinou Santo Tomás de Aquino, é “necessário reconhecer segundo a fé católica, que todo o Cristo está presente neste sacramento”.

Depois de recordar que no tempo pascal, freqüentemente a Igreja administra a Primeira Comunhão às crianças, Bento XVI exortou os párocos, pais de família e catequistas em todo mundo a que “preparem bem esta festa da fé, com grande ardor, mas também com sobriedade”.

O Papa Bento XVI pediu à Virgem Maria que “nos ajude a escutar com atenção a Palavra do Senhor e a participar dignamente na mesa do Sacrifício Eucarístico, para converter-nos em testemunhos da nova humanidade”.

Do site ACI Digital

segunda-feira, 16 de abril de 2012

PARABÉNS DOCE CRISTO NA TERRA,  MUITOS E SANTOS ANOS DE VIDA!



O Santo Padre, o Papa Bento XVI, completa hoje 85 anos. Ontem, durante a oração do Regina Caeli, ele afirmou sobre o outro aniversário que se aproxima, o de sua eleição ao Sólio Pontifício: “Na próxima quinta-feira, por ocasião do sétimo aniversário da minha eleição para a sede de Pedro, peço-vos que rezem por mim, para que o Senhor me dê a força de cumprir a missão que me foi confiada”.

℣. Oremus pro Pontifice nostro Benedicto.
℟. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.
℣. Tu es Petrus,
℟. Et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam.
Oremus.
Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum Benedictum, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam.
Per Christum, Dominum nostrum.
℟. Amen.

domingo, 8 de abril de 2012

Um chamado à obediência do Papa aos dissidentes austríacos.

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«Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à tão falada auto-realização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?
[...]
Deixemo-nos interpelar por mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a acção eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.
[...]
A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem. [...] As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amen.